FAMA Campo

Marcia Pastore, Transposição, 2018/ 2019. Terra e capim.
Trabalho comissionado pela Fábrica de Arte Marcos Amaro
Colaboração Taipal Brasil

Foto: Isabella Matheus/Pinacoteca de São Paulo

TRANSPOSIÇÃO | Marcia Pastore

vídeo por Francisco Martins Fontes

REDESENHANDO A PAISAGEM

Redesenhando a paisagem

Não existe linha reta no horizonte de Marcia Pastore, apenas o desejo pela forma seca e rígida que redesenha a paisagem em busca do lugar espiritual do campo, na conjunção do local e do entorno.

O processo se dá na experimentação e na vivência do lugar para vislumbrar a forma, a dimensão e as linhas das bordas da sua escultura na paisagem do FAMA Campo.

Pastore é a primeira artista a intervir nessa paisagem que conforma o novo museu a céu aberto.

A intervenção é percebida na aproximação com o trabalho inserido no meio desse campo em uma relação da coisa plástica com a terra exposta nos seus tons avermelhados e no entorno verde das plantas. Corte, remoção de terra, precisão, contenção, cimento, vergalhões de ferro, pedra moída, terra, terra batida, mãos, modelagem, sedimentação, linhas, volume e acomodação da forma na natureza. Esses são os elementos e as muitas ações que permeiam Transposição. Instalada não à toa no lugar mais estreito de maneira a criar uma relação com as bordas do terreno, ficando evidente o “gesto” da artista de apenas cavar e remover a terra, dando formas geométricas cúbicas, uma convexa e outra côncava.

A artista colocou essas formas escultóricas no lugar certo, preciso, depois de cuidadosamente observar a suave queda do terreno, criando uma situação nessa topografia que exige de algum modo a participação do público. É no deslocamento que se descobre a intervenção na paisagem. A contemplação, portanto, depende desse adentrar e dessa caminhada no meio do campo.

A escultura sem mudar a topografia é mimetizada no lugar, por ser feita da mesma terra que foi removida durante a transposição. As formas para dentro e para fora, têm as variações tonais dos pigmentos terrosos que conferem visualmente a elas uma textura aveludada. A paredes são feitas de taipa, milenar maneira de construir casas e edificações, problematizando a construção civil ao recuperar essa técnica para formatar as formas cúbicas em uma oposição dos elementos cheio e vazio.

O volume cheio e o vazio aparecem e crescem conforme se caminha pelo terreno a pé para se encontrar o embate escultórico desenhado, é esse o desejo da artista.

Pastore é daquelas artistas que não desenham sobre uma folha de papel para guardar uma ideia ou para orientar a execução de um projeto. No seu caso, o desenho é mental. Fica no plano das ideias e é materializado no diálogo e nos gestos das mãos que redesenham diretamente no espaço dado, enquanto fala.

Pastore não queria uma ação violenta desse gesto plástico, mas apenas uma linha na paisagem para quem a vê no horizonte de dentro ou de fora da sua intervenção escultórica, só percebida, portanto, por quem anda no meio da paisagem circundante do museu FAMA Campo. É a mulher e a natureza na retidão que confronta as linhas tortas do horizonte. O Feminino e o masculino da escultura seca e rígida de Marcia Pastore encontram-se devolvidos à paisagem a céu aberto.


Ricardo Resende,
Curador
Fábrica de Arte Marcos Amaro  

ONDE O CÉU ENCONTRA-SE COM O CHÃO E O AR COM A TERRA

Onde o céu encontra-se com o chão e o ar com a terra

Inspirado em uma nova forma de pensar os museus e inspirada na corrente artística dos anos 1960 do “land art”, a Fábrica de Arte Marcos Amaro inaugura seu novo braço da FAMA – Itu, o FAMA – Campo, situado na região da cidade de Mairinque, interior do estado de São Paulo.

Mais do que um oásis de arte no interior do Estado, a iniciativa quer fazer sentido para uma nova forma de olhar a arte. Qual? Trata-se de novo modo despretensioso de expor a arte, em um museu aberto, sem paredes. No qual o público vai poder andar e pensar a escultura a céu aberto – de maneira a se permitir o deslumbramento de um museu sem muros, sem proteção do sol, do vento, da chuva, do mato, dos insetos e dos bichos.

A ideia fomentada é que a arte esteja em total sintonia com as paisagens dada e modificada. Onde a escultura é transformadora e ao mesmo tempo é transformada pela natureza. Onde o público vai ter que caminhar para encontrar esse lugar, saindo da passividade do olhar e se convidando a explorar outras parte do corpo, da experiência artística.

O projeto, portanto, torna um pedaço de terra em uma paisagem construída, ainda mais acidentada e menos monótona que as formas convencionais de exposição vistas em instituições museológicas, em sua maioria fechadas entre quatro paredes.

O que se propõe a FAMA Campo? Intervenções dos artistas na paisagem de esculturas com caráter efêmero. Em outras palavras, sem a necessidade de conservação ou preservação, as esculturas são pensadas em harmonia com a natureza, sem agredi-la. Mesmo sem uma temática a orientar as criações artísticas, espera-se também que estas venham a refletir as questões da arte na contemporaneidade. Tais como a natureza e sua sustentabilidade, os desvios das ações humanas, da política e da necessidade de pensarmos na transitoriedade da vida.

Sem o conceito de permanência para a “eternidade” que prevalece nas criações da arte até então, inclusive a arte contemporânea com toda a sua complexidade, a “impermanência” é o que norteia o projeto da FAMA Campo. O espaço será uma mostra em que todos os artistas deverão entrar respeitando o lugar, sem hierarquia. No entanto, a natureza deve prevalecer e é quem vai ditar a ordem das coisas. Em tempos de discussões acirradas acerca da preservação dos ecossistemas do planeta, é um privilégio pensar o FAMA Campo. Nenhum trabalho será feito para durar para sempre e nem serão museificados, portanto.


Ricardo Resende

VISITE

MARCIA PASTORE

Marcia Pastore investiga as relação entre espaço e escultura de diversas formas, e seus trabalhos integram algumas das principais coleções do Brasil, caso da Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC USP), o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e o Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto.

Começou a expor pelo país três décadas atrás: desde os anos 1990, participa da programação do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro e do Palácio das Artes, em Belo Horizonte; e, a partir dos 2000, passou ocupar a Caixa Cultural de Fortaleza, o Centro Cultural Maria Antônia, o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas, a Biblioteca Mario de Andrade, o Museu Brasileiro da Escultura, a Funarte e o Centro Cultural São Paulo. Atuou duas vezes na Arco Feira Internacional de Arte Contemporânea de Madri e também na inauguração do Vestfossen Kunst Laboratorium, em Oslo, na Noruega.