Marcos Amaro: Transpictórico

Marcos Amaro: Transpictórico
Beatriz Sant'Ana

Marcos Amaro: Transpictórico

Marcos  Amaro  desbrava  o  campo  escultórico  e  pictórico contemporâneo, em que não se definem muito bem os limites do  que  entendemos  por  escultura,  instalação  e  pintura.  Tampouco é possível falar em estilo. Na arte contemporânea, a  palavra  caiu  em  desuso  –  e  menos  ainda  se  encaixa  na  obra instalacional e pictórica de Amaro.

Não  são  normas  tradicionais  que  regem  sua  criação.  Assim  como não há a exigência de materiais nobres ou de fatura pelas próprias mãos do artista – a matéria nem sequer precisa ser  moldada,  já  é  entregue  tal  como  é.  A  práxis  de Marcos  Amaro é transformar a matéria, tirar o sentido original de sua forma  e  função  para  dar-lhe  uma  nova  condição  de  escultura. O mesmo se dá com seus desenhos, gravuras e fotografias,  nos  quais  registra  os  índices  da  aviação  e  de  embarcações de guerra.

O artista tem paixão por aeronaves, principalmente as usadas em guerras. Aviões que foram vistos na Primeira e na Segunda Guerras  Mundiais  sobrevoando  os  céus  da  Europa,  na  primeira metade do século 20. Submarinos desenhados na superfície  dos  oceanos  carregam  a  atmosfera  pesada  do  desenho denso de cinza e negro, representação sinistra do medo que pairava sobre o território europeu, palco de duas guerras mundiais.

Nas  pinturas  volumosas  de  parede,  em  uma  primeira  vista,  emerge o acúmulo de coisas aparentemente aleatórias que formam  uma  massa  assumindo  certo  geometrismo,  meio  mole, meio arredondado, ora duro, ora macio, e até mesmo esvaziado  da  forma.  Em  outras  palavras,  um  gesto pictórico  disforme ao juntar partes de maquinários, assentos vermelhos originários  de  material  aeronáutico,  fazendo  disso  uma  espécie de colagem ou bricolagem, como faziam os artistas dadaístas  e  inventores  das  instalações  ao  juntarem  matéria,  forma e cor, lá nos anos 1920.

Há,  nessas  misturas  de  materiais  de  Marcos  Amaro,  campos  bem definidos e organizados, como se viam nas colagens dos dadaístas.  Volumes  e  formas  meio  disformes  organizados  no  espaço, no caso de Amaro, de diversas procedências. Sobressaem tema e material aeronáuticos. Um debruçar mais cuidadoso sobre essas esculturas e instalações leva o olhar do espectador  a perceber que o que existe ali não é aleatório,  mas sim uma ordenação peculiar desses volumes.

A  bem  da  verdade,  o artista divaga sobre a diversidade de  matérias e formas enquanto pinta, desmonta, acumula e pratica  a  colagem,  desenha,  grava,  fotografa,  imprime  e  pinta. Tudo isso compõe seu processo de criação com partes de carcaças de avião que o artista recorta e desloca para o espaço  expositivo,  conferindo-lhes  condição  escultórica.  Essas peças adquirem a forma de barcos ou de sobras da carcaça  de  uma  embarcação.  Deixam  de  ser  partes  de  aeronaves para nos fazer lembrar de partes de navegações, mimetizando assim, com o peso do negrume sobre o chão e a parede, um mar no horizonte.

Em sua poética, Marcos Amaro procura seu caminho plástico e coerência para dar forma ao conjunto desta exposição na Funarte de Belo Horizonte.

Ele  confere  novos  sentidos  para  a  matéria,  para o gesto de  esculpir, gravar, desenhar e pintar, em um claro desejo de ter asas para voar na imaginação.

Ricardo Resende
Curador