Flávio de Carvalho

Flávio de Carvalho
Beatriz Sant'Ana

Flávio de Carvalho

Barra Mansa, RJ, 1899
Valinhos, SP, 1973

Grande pintor e desenhista brasileiro, Flávio de Carvalho (1899-1973) destacou-se também por seu importante papel como agitador cultural. Participou da criação de espaços de discussão de diferentes áreas, agregando artistas, músicos, escritores e psiquiatras desde os anos 20, década chave da produção artística brasileira. “A ele são creditadas ações importantes para a renovação das artes. Engenheiro, arquiteto, pintor, desenhista de extraordinária inventiva, que o consagra como o número 1 do seu tempo”, declarou Pietro Maria Bardi, grande colecionador e historiador, responsável, ao lado de Assis Chateaubriand, pela criação do MASP, Museu de Arte de São Paulo, no livro O Modernismo no Brasil, publicado em 1978.

A arte de Carvalho sempre foi repleta de emoção. Com um trabalho considerado expressionista, com toques de surrealismo, depositava na produção gestual grande parte de sua energia criativa, como é possível ver na série de desenhos realizada nos anos 60 e expostos na Galeria Kogan Amaro Zurique. Seus temas mais frequentes foram os nus e retratos, escolhas baseadas no interesse de reforçar aspectos emotivos e psicológicos dos personagens. “Neles há um mundo a se descobrir e a se aperfeiçoar; não só no que se refere à dialética pura da pintura como no que toca à importância humana do personagem”, disse o artista em uma entrevista à época.

Foram muitos os feitos icônicos e polêmicos durante seus anos de produção. Em 1931, realizou Experiência nº 2, em que caminhou em sentido contrário ao de uma procissão de Corpus Christi. O ato, considerado desrespeitoso, levou o artista quase ao linchamento, tendo que ser protegido por policiais. Sua intenção, esclareceu posteriormente, era testar os limites de tolerância e a agressividade de uma multidão religiosa.

Sua efusiva forma de contribuir constantemente para a cena cultural fez com que criasse o CAM – Clube de Artistas Modernos, ao lado de Antonio Gomide (1895 – 1967), Di Cavalcanti (1897-1976) e Carlos Prado (1908-1922), em 1932. Com eles, estimulou a produção artística brasileira, promovendo, inclusive uma emblemática exposição de obras selecionadas pelo médico e crítico Osório Cesar. Nela, foram apresentadas pinturas, desenhos e esculturas feitas por pacientes do Hospital Psiquiátrico de Juqueri, uma das mais antigas e maiores colônias psiquiátricas do Brasil, localizada em Franco da Rocha, região metropolitana de São Paulo. A exposição mostrou a proximidade entre arte produzida por doentes mentais e as novas tendências estéticas, tais como o próprio modernismo brasileiro.

Sua produção extremamente diversa também o levou a escrever sobre moda na imprensa brasileira. Inspirado por tais artigos, lança, em 1956, o famoso traje de verão – o New Look, especialmente concebido para o homem dos trópicos, com o qual passeia pelas ruas de São Paulo, chocando a multidão. Com isso, Carvalho tornou-se pioneiro da performance no País, abrindo caminho para os novos processos artísticos que se desenvolveram no Brasil, a partir das décadas de 60 e 70.

Flavio de Carvalho, artista visionário, expoente da vanguarda brasileira do século 20, teve como feito expandir a compreensão do campo da arte para além do que era conhecido à sua época. Seus experimentos nada convencionais e suas ideias ousadas reverberam na atualidade, ampliando o que pode se considerar arte. Como multiartista fez da arte e da vida uma coisa só.


Ana Carolina Ralston
curadora