Amadeo Luciano Lorenzato

Amadeo Luciano Lorenzato
FAMA Museu

Amadeo Luciano Lorenzato

Belo Horizonte, MG (1900 – 1995)

Lorenzato é desses artistas que amamos de coração e que nos provoca emoção e encanto quando nos deparamos com sua obra singela, modesta e sincera. Ato puro de pintar o que vê. São os gestos e as cores de vistas em suas telas que trazem a emoção desse ato de enxergar. Ver o que tem à sua volta. Ver o que sente de cima de uma bicicleta. Através de uma janela ou quando está de longe a observar as paisagens do mundo. Suas pinturas parecem ser um voto franciscano de pobreza pois carregam apenas a beleza desse mundo que vemos e que sentimos. É a pintura do encanto de pintar uma pintura. Nada mais do que uma maneira especial de retratar o universo mágico da vida, em suas cores suavizadas e aparentemente esmaecidas pelo tempo.

O artista mineiro, Amadeo Luciano Lorenzato, natural de Belo Horizonte, filho de imigrantes italianos, teve pouco tempo de escola de arte e não seguiu tendências, apenas pintava o que vinha na sua cabeça ou no que via com os seus olhos e coração. Pintava pelo prazer de pintar e entendia que o que fazia ser atual. Não concordava com a definição que lhe impingiam de ser um artista naifï, que não tinha intenção de fazer Arte. Ledo engano desses que queriam rapidamente enquadrá-lo em um categoria estilística da Arte. Impossível mesmo de categorizá-lo e tirar-lhe o direito do que fazia, ser entendido por Arte com A maiúsculo.

Como Alfredo Volpi e muitos outros artistas, seus contemporâneos, de origem italiana também, não existe gavetas para enquadrá-los. Lorenzato começou a trabalhar como Volpi, como ajudante de pintor de paredes. Não à toa suas pinturas observadas sob o mesmo prisma de cores e fatura, têm a mesma pictorialidade e materialidade. Ambos carregavam no seu currículo profissional, exercer o ofício de pintor de paredes. Lorenzato exerceu esse ofício como profissão quando fez o caminho de volta dos pais, ao mudar-se para Arsiero (Itália), logo depois do final da I Guerra Mundial. Em 1925, estuda na Reale Accademia delle Arti, em Vicenza. Depois vai viajar como um observador das paisagens do mundo junto de outro artista sobre uma bicicleta, pela Europa, por longos dois anos. Passam por paisagens da Áustria, Eslováquia, Hungria, Bulgária e Turquia e terminam sua viajem ao separar-se do artista amigo holandês, Cornelius Keesman, com quem dividia a viagem. Vai morar em Paris e de volta à Roma, em 1948, retorna para o Brasil. Em Belo Horizonte, volta a exercer o ofício de pintor de parede até que em 1956 é obrigado, depois de sofrer um acidente, a deixar a profissão. É levado diante das circunstâncias físicas a dedicar-se exclusivamente à arte de pintar e esculpir.

Naquela passagem por Paris teve como amigo, e fica evidente na influência de sua paleta, o artista Gino Severini (1883 – 1966), um dos expoentes da arte moderna italiana. Pintor da vida cotidiana, Lorenzato vendeu sua primeira pintura, tardiamente, aos 52 anos de idade. Pintava sobre qualquer superfície, pintava com o que tinha ao alcance de suas mãos. Pintava com o coração na verdade, que faz uma das características de suas telas,na aspereza das cores, no pálido quase desbotado dessas mesmas cores sobre madeira, papelão e tela, lhes conferindo um olhar de aparência melancólica para o mundo.

Se podemos comparar sua obra com a de um artista de matriz naifï, popular que seja, é na modéstia de sua pintura e da sua simplicidade de apresentação. Essa paleta de cores vem também da sua admiração da Arte Renascentista, que dizia admirar. Dos afrescos de Giotto (1267 – 1337), Massaccio (1401 – 1428), de Domenico Ghirlandaio (1448 – 1494) que pode também ser observada nas pinturas de artistas contemporâneos de Severini, tais como Giorgio Morandi (1890 – 1964) e Carlo Carrá (1881 – 1966), que tinham em sua fatura a textura arenosa, meio ocre e meio desbotada, como se fosse a ação do tempo. É características pictóricas dos afrescos. Lorenzato trabalhou em restauro dessas pinturas de parede na Itália o que faz dele um artista singular e despretensioso, que pintou com pureza o que viu. A realidade concreta encontrada na natureza ao longo das cinco décadas de sua carreira de artista, de homem simples.


Ricardo Resende
Curador
FAMA Museu e Campo