Pola Fernandes | Entrevista

Pola Fernandes | Entrevista
Beatriz Sant'Ana

Entrevista com

Pola Fernandez

A chilena Pola Fernandez chegou ao Brasil em 1979, aos 20 anos, e “por causa de uma grande história de amor”, como diz. À época, trabalhava como pedagoga, seu ofício de formação, mas já flertava com o compromisso que, mais tarde, assumiu para si – profissão: artista. “A arte entrou na minha vida como por osmose. Minhas irmãs e avós já eram artistas, e sempre produzi, apesar de não ter me assumido uma delas até então. De repente, foi como se aquilo tivesse tomado meu corpo todo e comecei a transbordar”, conta. Depois de alguns anos e três filhos, Pola se dedicou aos estudos de fotografia e fez uma pós em artes visuais na Unicamp. Mas, há um ano, um novo desafio transformou sua trajetória artística profundamente: o último Edital da Fábrica de Arte Marcos Amaro, que venceu, e uma residência no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, no Rio, que lhe garantiu várias viagens entre Itu, onde mora, e o Museu – no qual, antigamente, funcionava o hospício em que vivia o artista que dá nome à instituição.

O Edital e a residência renderam uma exposição dividida ao meio chamada Hipostasis; Considerações sobre o avesso: parte dela está em cartaz na FAMA, e a outra será inaugurada na semana que vem, lá no Museu do Bispo. Confira aqui um trecho da entrevista – e a íntegra no nosso site.

FAMA: Em que consiste Hipostasis?

POLA: A ideia inicial era dar visibilidade às memórias que contêm tanto as paredes da Fábrica [de Arte Marcos Amaro] como do Museu Bispo do Rosário. Ou seja, dar textura às lembranças daquilo e daqueles que conviveram com as construções antes de elas virarem instituições de arte – a FAMA era uma fábrica de tecidos; o Museu Bispo, um manicômio.

Como foi o processo criativo?

Estive várias vezes em cada um dos dois lugares, desbravando o avesso de suas paredes. Chamo de avesso tudo aquilo que está por trás do concreto, o que não se fala, o que não foi dito, o que é impossível enxergar sem convívio. Porém tudo isso é possível sentir. O que fiz foi materializá-lo com intervenções artísticas, para que todos pudessem ver. Usei muitas linhas e lãs, uma referência ao período têxtil da FAMA.

Qual o propósito de desbravar esse avesso?

Eu quis visibilizar uma situação invisível, torná-la tangível. Usei fotografias que complementei com pintura, bordado, costuras. Uma investigação do entorno, das minhas sensações e também dos frequentadores. Tudo para evidenciar a memória desses dois lugares. Inclusive com a ajuda de artistas do Atelier Gaia e dos usuários da Saúde Mental que ainda usufruem dos serviços daquele manicômio em parte desativado.

Que memórias você leva dessa experiência?

Entendi que temos todos muito a aprender com essa “arte limpa e viva” que não tem contaminação de referências externas, internacionais, intelectualizadas. Uma arte que parte apenas da nossa intuição, retratando os sentimentos e o inconsciente – tantas vezes sem sentido. A arte que consideramos “normal” é cheia do ritmo maluco do mundo de hoje. Esse projeto todo fez com que eu me questionasse: onde, afinal, é o manicômio?