Louise Bourgeois

Louise Bourgeois
Beatriz Sant'Ana

Louise Bourgeois

(França, 1911–EUA, 2010)

Filha de uma tapeceira e restauradora, a artista francesa Louise Bourgeois cresceu com agulha e linhas nas mãos, vendo sua mãe costurar e refazer tecidos velhos. “Minha costura é uma ação simbólica contra o medo de ser separada e abandonada. Nós percebemos no trabalho de Bispo do Rosário que ele também tinha medo de perder o contato”, escreveu ela, sobre a obra do sergipano, no prefácio do livro Século XX – Arthur Bispo do Rosário, a pedido do amigo e curador capixaba Paulo Herkenhoff. 

O alinhavar cuidadoso uniu tanto os retalhos que compõem Femme (2004) – figura criada por Bourgeois que evoca a Vênus de Willendorf, símbolo da fertilidade paleolítica que muito a influenciou ao explorar a feminilidade – quanto aqueles que deram origem às inúmeras obras produzidas por Bispo do Rosário, entre elas o emblemático Manto da Apresentação, peça que costurou e bordou com diligência para vestir no dia de seu encontro com Deus, no Juízo Final.

A cor azul, que evoca a espiritualidade, da linha desfiada por Bispo dos uniformes do hospital psiquiátrico para tecer suas criações também aparece estampada em algumas das 16 pinturas feitas em tecido da suíte Do Not Abandon Me (2009–2010), uma produção conjunta de Bourgeois e a britânica Tracey Emin. A cor está entre as preferidas da francesa, que a elegeu de forma recorrente em seu legado. Em algumas das obras da série, ela apenas deixou que a tinta penetrasse na trama, fazendo com que o próprio tecido produzisse o desenho final. A partir daí, as peças ganharam as diminutas, mas não menos fortes, figuras femininas com alto teor sexual traçadas por Emin, acompanhadas por frases que recorrem ao temor relatado por Bourgeois de desabitar o mundo – diferentemente de Bispo, que, sem temor, queria transcender na sua viagem espiritual e religiosa para o fim do mundo.


Ana Carolina Ralston

Co-curadora
Fábrica de Arte Marcos Amaro