Bispo do Rosário

Bispo do Rosário
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Bispo do Rosário: as coisas do mundo

Dizem que Arthur Bispo do Rosário ouvia vozes que o ordenava a organizar o mundo. E, nessa tarefa de dar conta das coisas terrenas, preparou também uma obra para o Juízo Final que carregou ao longo da vida, como se fosse uma condenação. Um trabalho autoral, único, que serviu de testemunho da sua experiência pessoal, religiosa, filosófica e, claro, manicomial (não foi pouco tempo: passou 50 anos entre idas e vindas de manicômios, depois de ter sido diagnosticado como esquizofrênico).

Seria sua obra um testemunho desta passagem pela Terra, um luto diante da finitude do corpo e da impossibilidade de uma vida plena fora dos muros do hospício? Foi uma condição que lhe foi imposta pela sociedade, claro, descrente de suas visões religiosas alucinadas.

Um artista: é assim que devemos identificá-lo, mesmo não considerando ele próprio que o que fazia seria arte. É certo, Bispo organizou a seu modo um mundo, como uma necessidade para se apegar à vida, e deu a isso, sem querer, forma de arte. Desfiava os uniformes azulados usados no hospício e usava os fios para delicadamente mumificar seus “pertences”. Assim, criou cerca de 900 peças, todas partes de um imenso “xadrez” em que retratava a poética do cotidiano humano, da vida fora e dentro de um dos maiores polos manicomiais do país, a Colônia Juliano Moreira, no que era, à época, os cafundós do Rio de Janeiro; atual Jacarepaguá.

Organizava essas coisas, serializando-as como se estivesse na linha de produção de uma fábrica – de tecidos, quiçá. Refiava, costurava, bordava e recobria com linha azul. Catalogou insistentemente os objetos, nomeou-os minuciosamente, em clara intenção de museificá-los, preservá-los para gerações do futuro.

Esse mesmo arquivo de objetos que organizou foi recatalogado no grande Manto da Anunciação (s.d.). Toda a obra está ali bordada, adornando luxuosamente a roupa requintada que, como rei, iria vestir para o encontro com Deus. Também como o profeta Noé, Bispo construiu seu Grande Veleiro (s.d.), onde guardaria tudo aquilo que queria preservar do mundo material dos homens, no fim dos tempos, no outro grande dilúvio que se abateria sobre as terras e oceanos.

Esta exposição pretende criar um diálogo de Bispo do Rosário com o espaço expositivo da Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA). Este em que, antigamente, funcionava a Fábrica São Pedro de tecidos, fundada em Itu, em 1910. E cuja produção se destacou em pouco tempo – já em 1912, operava com mais de 150 teares; em 1944, contava com 2 mil operários e foi a que mais empregou na cidade nesse setor.

Cresceu para os lados: são hoje mais de 20 mil metros de área construída. E, apesar de esse palco do trabalho operário ter tido suas atividades encerradas em 1990, prenunciando novos tempos e em meio à abertura do mercado têxtil para os chineses, a história da fábrica não se apagou.

Em 2017, a FAMA inaugurou uma nova era de ocupação para os velhos galpões em estado ruinoso. Agora, os prédios guardam não só a memória do lugar, mas também abrigam arte. Um acervo que vem se avolumando a cada dia.

Em Bispo do Rosário: as coisas do mundo, a seleção de trabalhos de Bispo observou o gesto de serializar, organizar e multiplicar como prática artística, tal qual se via na indústria têxtil, quando os operários é que “produziam” as coisas que seriam usadas no cotidiano.

Canecas, pentes, gravatas, sapatos, sandálias, chapéus e roupas; são essas as coisas organizadas por Bispo em suportes que lembram as vitrines dos camelôs de ruas, vendedores ambulantes que se espalham pelas ruas das cidades do país com seus mostruários de mercadorias a serem vendidas.

Vitrines que fazem um paralelo entre o expediente controlado do operário braçal, conduzido a repetir gestos e ações serializadas por horas a fio, e o dia a dia dos pacientes dos manicômios. Como a história que Bispo viveu na Colônia Juliano Moreira, refazendo gestos diariamente, insistente e compulsivamente por décadas, até sua morte na cidade do Rio de Janeiro.

Foi diante dessa condição asilar que Bispo inventou seu próprio espaço de viver, uma fuga da normatividade que rege a vida humana nesses lugares, a fábrica, o hospício e fora deles.

É esse universo que se pretende apresentar ao público do interior paulista Bispo do Rosário, o artista não artista, aquele que nega sua condição de criador. Uma mostra de 50 trabalhos que indicam a sua insistência de pertencer ao mundo da produção, criando coisas da vida cotidiana. Também a sua maneira de nos contar da sua passagem pela vida terrena.

Bispo do Rosário: as coisas do mundo também cria um diálogo de Bispo do Rosário com quatro artistas da coleção da FAMA. São elas: Louise Bourgeois, Carmela Gross, Nazareth Pacheco e Sonia Gomes.

Em comum, têm o gesto de costurar e construir coisas da mesma maneira que fazia o sergipano. Mulheres que se acostumaram a tecer o mundo.